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Como eu me desapaixono: (dois pontos) v343

por Sobre.tudo, em 29.07.18

Sorrio (neste preciso momento, a este título).

Mas anteontem chorei. E muito. E gritei e solucei e fui comprar uns óculos de sol (porque tinha mesmo de ser) com os olhos inchados, vermelhos e marejados de lágrimas. E ouvi música deprimente e senti-me miserável.

Basicamente, é assim que me desapaixono.

O que é que correu mal?

Desta vez?

Não é assim tão importante, na verdade, percebo agora. Quando nos empenhamos numa coisa como eu me empenho em encontrar ‘aquele’ amor é perfeitamente aceitável que tentemos 4.556 vezes sem sucesso. Já dizia Thomas A. Edison ‘I have not failed. I’ve just found 10.000 ways that won’t work’.

Foi numa noite de Domingo que senti a primeira quebra de energia. Tive uma insónia dolorosa nessa noite. Senti, inequivocamente, que algo estava mal. Tenho aprendido a escutar as minhas vozes internas e cada vez mais me permito sentir o que me dizem. Assim, comecei lenta e lamentavelmente a retrair. Depois, foi uma questão de tempo… 4 dias mais precisamente, até ouvir ‘Saí há pouco tempo de uma relação.', 'Apaixono-me muito rapidamente.', 'Não estou preparado para me envolver novamente.', 'Já vi que tu és uma miúda super carente e que não seria só sexo.', 'Não te quero magoar.’ – 5/julho/2018.

Ainda sinto o nó na garganta e ainda se me enchem de lágrimas os olhos.

Já estava apaixonada. Com dois encontros, alguns caracteres e zero contacto físico. Estava apaixonada pela ideia, pelo conceito, pela perspectiva, pela expectativa, pela crença.

Três semanas volvidas e já passei pelos 5 estádios do luto:

- Negação

- Raiva

- Negociação

- Depressão

- Aceitação

Luto? Perguntam-se, e bem. Por uma história que mal durou um mês e onde nem uma carícia, um abraço ou um beijo se trocou?

Permitam-me justificar que a dor emocional varia, substancialmente, de acordo com o nível de entrega que cada um se permite e eu, bom, eu não me protejo nada. O meu nível de entrega nunca foi tão exponencial como hoje em dia. E, claro, para grandes voos, grandes quedas.

Os 5 estádios do luto face a uma separação unilateral partilham a mesma estrutura básica do luto pela morte de um ente querido, com as devidas ressalvas, obviamente. Aceitar que todas as fases são naturais e em que consiste cada uma pode aliviar significativamente a dor emocional.

 

A fase da negação é um dos mecanismos de defesa de Freud mais simples de compreender. À semelhança de todos os outros, serve para aliviar a dor causada por um determinado evento e mais não é que negar a sua ocorrência, recusando acreditar que realmente está a acontecer.

No caso das separações, a ‘vítima’ não é capaz de acreditar que o relacionamento ou a história acabou, continuando a agir como se a qualquer momento a outra pessoa fosse voltar. Para algumas pessoas, o fim parece não ser mais do que uma discussão normal e recorrente. Nestes casos, ficam à espera da breve reconciliação. Para outras pessoas, embora o fim esteja evidente, opta-se por acreditar que, com um pouco de esforço e empenho, o parceiro voltará em breve.

No meu caso, disse para mim mesma que aquela conversa toda tinha sido uma grande precipitação da parte dele, que tinha sentido que se tinha arrependido na hora e que em breve estaria de volta. E assim foi. 3 dias depois, voltou. O que não invalida que eu já estivesse em negação (e ele também).

 

A fase da raiva já decorre da aceitação de que o relacionamento ou a história acabou. É perfeitamente normal surgirem sentimentos de hostilidade e raiva que, na verdade, desempenham um papel fundamental no alívio da intensidade da dor emocional.

Pensamentos como ‘Ele não me merecia’, ‘Vai arrepender-se’, ‘Estou melhor sem ele’, ‘Vou encontrar muito melhor’ ou ‘Ele não sabe o que está a perder’ são muito recorrentes nesta fase.

Este diálogo mental esconde, obviamente, grandes quantidades de dor e ressentimento que não poderão ser recalcados por muito tempo se quisermos avançar no processo do luto. Compreender e aceitar que o ex-parceiro é (só) uma pessoa normal que fez o melhor que pode vai ajudando a diluir a raiva e a avançar.

No meu caso, ganhei-lhe raiva porque depois de eu permitir que ele voltasse, ele voltou a ir embora. Desta feita sem o mesmo nível de frontalidade da primeira e sim com ‘Ando super ocupado.’. Sim, ele usou COMIGO a frase do ‘Ando a mil’. Nem queria acreditar. Afastei-me, claro, e desenvolvi-lhe toda a espécie de fúrias e irritações.

 

A fase da negociação chega, quando a raiva passa e se constata que o ex-parceiro ainda não voltou. Instalam-se então sentimentos radicalmente opostos e a pessoa que está a vivenciar o luto tenta reconquistar o ex-parceiro. A forma como esta reconquista é levada a cabo varia de pessoa para pessoa podendo passar por gestos românticos, súplicas, chantagens emocionais ou tentativas vãs de provocar ciúmes, no caso de personalidades mais histriónicas ou depressivas, ou apenas por contactos frívolos e superficiais para estabelecer contacto com o outro e manter viva a memória. 

À semelhança de todos os outros, nem todos os estádios do luto são obrigatoriamente experimentados e mesmo a forma como se passa por cada um eles irá variar muito de acordo, não só com a personalidade de cada um, mas também com o nível de maturidade e consciência que se tem no momento.

No meu caso, não o tentei reconquistar. Ainda assim, após a raiva passar, experienciei aquilo que poderá ser considerada uma variante do estádio da negociação, uma vez que, durante algum tempo, mesmo não estabelecendo qualquer tipo de contacto com ele, desenvolvi uma crença interna de que ele poderia estar a sofrer com o meu afastamento e eu devia entrar em contacto com ele para aferir se assim era. Por estar consciente do processo, consegui dialogar internamente até compreender que o que estava a sentir não era real e era apenas mais uma forma de atenuar a dor que estava a sentir.

 

Passa-se então à fase da depressão altura em que se aceita final e inequivocamente que o ex-parceiro não voltará. Nesta fase, tende-se a desenvolver sentimentos extremamente pessimistas e fatalistas uma vez que a crença predominante é de que não será possível viver sem a outra pessoa. Assim, é normal que pensamentos como os seguintes aflorarem na nossa mente:

‘Nunca encontrarei ninguém como ele.’, ‘Nunca encontrarei ninguém, de todo’, ‘Vou ficar sozinha para sempre’, ‘Nunca mais me voltarei a sentir bem’, ‘Ninguém me vai voltar a amar como ele me amou’, etc.

As mensagens que nesta fase enviamos para nós mesmos são, na sua maioria, pensamentos irracionais fruto da dor emocional associada à perda que estamos a sentir. Para poder seguir em frente é de vital importância que, pouco a pouco, consigamos ir contrariando estes pensamentos destrutivos aceitando que é possível voltar a ficar bem mesmo sem o outro e que perder esse relacionamento pode, afinal, não ser assim tão terrível.

No meu caso, por já ser a v_343 (lol), sabia racionalmente que o que estava a sentir iria passar sim, mas isso não invalidou que não tivesse sido acometida exactamente por pensamentos como os descritos em cima. Por esses e por outros como ‘Nunca ninguém me vai aceitar como eu sou’, ‘Nunca vou encontrar o amor que procuro’, ‘Estou cansada, quero desistir’, ‘Vou escolher ficar sozinha para sempre’, ‘Nunca mais vou deixar ninguém se aproximar de mim’.

 

Por fim, na última fase do luto, ocorre a aceitação. Neste momento, aceita-se a perda, a decisão do outro (mesmo que nunca se chegue a compreender totalmente) e aceita-se a realidade de que afinal é possível viver sem ele. Neste momento, a ‘vítima’ deixa de o ser e está preparada para reconstruir a sua vida e até iniciar um novo relacionamento de forma saudável.

 

É aqui que estou agora. Aprendi, às custas das minhas dores emocionais, que o luto não deve nunca ser ignorado. O tempo que cada um passa em cada estádio do luto depende da personalidade, do tipo de laço que terminou e da consciência do que se está a viver. O inevitável é mesmo ter paciência e acreditar que vai efectivamente passar e que voltaremos a sentir-nos bem de novo.

Aí...sorrimos e seguimos, mais confiantes ainda que antes!

Rosa LeBron

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publicado às 17:44


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