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Ócio paternal

por Sobre.tudo, em 26.08.18

Recordo as abafadas tardes de ócio que passávamos juntos.

Não fazíamos muito e falávamos apenas qb. Mas ficávamos ali, literalmente, debaixo de um qualquer chaparro onde havíamos antes estendido a pesada manta. Eu sonhava, ele, não sei.

De vez em quando, olhava para mim e os olhos sorriam-lhe. Murmurava qualquer coisa sobre a minha cabeça estar ao sol ou estar a pisar uma formiga e remetia-se novamente ao silêncio pensador, permitindo-me a mim, voltar a submergir nos meus sonhos.

De quando em vez, eu deitava a minha cabeça na barriga dele e ficávamos os dois a partilhar sonhos. Conseguíamos ver o céu azul entrecortado pelas folhas da árvore escolhida para o ritual e ali ficávamos a aguardar a chegada da brisa.

Foi havendo mais silêncio à medida que fui crescendo. Não um silêncio imposto pela ausência de assunto. Antes, um silêncio que falava por ondas de inspirações e expirações. A menina tagarela que afugentava os peixes ao meu pai, foi dando lugar à introvertida mulher que comunica com os olhos e sorrisos. Aprendi isso com ele.

Somos os dois virados para dentro. Gostamos os dois de brisa e não de vento. Sempre nos protegemos e amámos à distância de um sentimento nunca vivido, apenas sonhado.

Foi nestas tardes de ócio, que o meu pai me falou sobre as principias capitais do mundo, que ensaiou a tabuada comigo e que me explicou o que era o buraco da camada do ozono. Mais tarde, foi aguardando a brisa que tardava, que o meu pai me explicou a diferença entre o ‘certo’ e o ‘errado’ com exemplos práticos das histórias das gentes lá da terra. Quando passámos a viver longe e as tardes de ócio começaram a ficar cada vez mais espaçadas no tempo, o meu pai esculpiu toscamente um sobreiro ao qual incumbiu a missão de me orientar sempre que eu precisasse e ele estivesse longe. Segurando aquele pedaço de madeira, perguntei ao meu pai qual a parte do alho francês que se comia, se a branca, se a verde, quando quis fazer a minha primeira sopa. E, segurando-o com a mesma tenacidade, pedi conselho ao meu pai sobre a minha decisão de divórcio. Em todos os momentos, o meu pai saiu com a resposta necessária. ‘A branca’, disse ele em relação ao alho francês.

O meu pai é verdadeiramente incrível.

Conseguiu fazer tudo isto tendo saído da minha vida aos 4 anos.

Se o meu pai existisse, tenho a certeza que teríamos vivido deliciosas tardes de ócio paternal.

Martina Eça

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publicado às 12:59


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