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Assédio & Sedução

por Sobre.tudo, em 15.04.18

Questionei-me se iniciava este texto com uma pergunta ou com uma afirmação.
É ténue a linha entre o assédio e a sedução?
Não. Não questiono. Afirmo.
É ténue a linha entre o assédio e a sedução.
O meu chefe convidou-me para irmos para um motel a seguir a um almoço de trabalho.
E nem foi muito subtil já que passámos o resto da tarde, já no escritório, a cavaquear sobre o tema.
Sim, eu não só fui trabalhar como se nada fosse como conversei amplamente sobre o que motiva um homem de 42 anos, casado há 10 e pai de 3 filhos a desejar ir para um motel com outra mulher (vamos esquecer, por uns instantes, que esta mulher, por acaso, também é sua funcionária).
Digamos que tive de justificar o facto de não querer ir para a cama com ele. E digamos que tive de usar outros argumentos que não:
‘Não me passa pela cabeça ir para a cama contigo porque não me atrais minimamente. És baixo e franzino quando eu até gosto mais de homens altos e encorpados. Tens uns dentes grandes a par dessa testa que te dão um ar cómico e nada apetitoso. As entradas confundem-me sempre se tens mesmo 42 ou 52! Não tens qualquer pudor em admitir que já traíste todas as mulheres com quem estiveste e que estás desesperado para trair esta também. Isto, a mulheres como eu, só revolve o estômago e não é definitivamente nada sexy. Vês o sexo como uma questão puramente física e percebo-te incapaz de criar qualquer tipo de conexão emocional com um momento que se pretende intenso, o que por si só é, para mim, um antídoto para a tesão. Por fim, tens um relacionamento um quanto inquietante com o dinheiro na medida em que o usas para controlar o que te rodeia cedendo apenas na medida em que isso te possa trazer um maior controlo sobre aquele a quem o destinas. Não, não só não tenho qualquer vontade de ir para a cama contigo como a ideia até me nauseia um nadinha.’
Em vez disso, expliquei que durmo apenas com homens por quem estou apaixonada.
Desde que entrei ao serviço, alimentei a falsa ideia de que tinha um ‘amigo especial’ para manter o meu chefe afastado. Nesta conversa, fui confrontada com isso: ‘Então, mas o que tu tens actualmente é uma relação puramente física, não é?’. Ok. Pergunta pouco legítima face aos interlocutores, mas pertinente. Vi-me então obrigada, ante a coerência, a assumir que não há ninguém há uns meses. E a tarde foi passando substancialmente à volta deste tema e insubstancialmente à volta da labora.
Permita-me que leia a sua mente agora, Sr. (a) Leitor (a).
Dei muita confiança, não foi? Onde é que ele foi buscar este ‘à vontadinha’? Pus-me de jeito, certo? Alguma coisa eu fiz para que ele fale assim comigo uma vez que consigo nunca ninguém tomou tamanhas liberdades, não é? E por fim, não estabeleci limites, é correcto?
Se enquanto me lia algum destes pensamentos o/a assolou, não se preocupe. Eu não estou verdadeiramente dentro da sua mente. Só sei o que está a pensar porque constatei que a linha entre o assédio e a sedução são tão ténues que nos catapultam aos juízos de valor instantaneamente.
Vejamos. O meu chefe não sabe que me está a assediar. Para ele, está a seduzir-me. Está a tentar a sua sorte, se eu ‘morder’ tanto melhor, se não ‘morder’, ele pelo menos tentou. Palavras dele.
Por sua vez, também eu até hoje sempre considerei que ele me estava a tentar seduzir. E sempre o mantive afastado recorrendo até a mentirinhas e omissões deliberadas. Não queria que ele me seduzisse, mas não queria que ele percebesse.
Foi esta última frase que me fez, finalmente, nomear as coisas decentemente.
Sedução é diferente de assédio simplesmente porque se eu estiver a ser seduzida e não quiser, eu posso, a qualquer momento e sem qualquer prejuízo, dizer ao envolvido ‘Basta’. Ao meu chefe não posso. Não posso, pois não?
Dir-me-á o/a Sr. (a) Leitor (a): ‘Claro que podes! Até já devias era tê-lo denunciado à ACT, ou à APAV, ou à tua avó!’.
Talvez não me diga isso se conseguir ir um nadinha além. O assédio coloca-me numa posição desconfortável na medida em que, na maior parte das vezes, me aborrece, mas nunca me colocou encostada à parede, se é que me faço entender. Não me sinto ameaçada para denunciar o caso às autoridades, obviamente, e uma simples conversa franca falando da incómoda posição em que me coloca iria melindrar o seu ego – enormemente. Suponho que o meu posto de trabalho não estaria em risco pois usaria de toda a minha astúcia para expor o caso, mas dificilmente conseguiria salvar a face do meu chefe. Arrisco-me a pressagiar que iria rir para lutar contra o desconforto e repetir a frase ‘Já podias ter dito’. Não tenho dúvidas que a actual flexibilidade e liberdade com que desempenho as minhas funções iria conhecer termo, pois não sou ingénua o suficiente para achar que se deve unicamente ao facto de ele acreditar que eu trabalho melhor se ele não me controlar.
Portanto, abordar o assunto enquanto precisar deste emprego é uma opção pouco atractiva, sendo que, denunciá-la se reveste logo de pouco sentido.
E eis onde bate o assédio! É aqui! Nesta dissuasão que a própria vítima de assédio faz a si própria!
Esta tem sido a reflexão dos últimos dias. Suponho que ninguém goste da palavra ‘vítima’ e eu, definitivamente, não a quero agregada ao meu nome! Por esse motivo, até hoje o meu chefe não me assediava, só me tentava seduzir.
E, por fim, o que é que eu fiz para que isto acontecesse? Sim, eu não posso ser uma vítima inocente, pois não? Então, o que eu fiz foi ser uma pândega que para além de pândega também é gira e gosta de vestir roupa justa e salto alto, maquilhar-se e pentear-se. Imagine-se a ousadia! E também ouso ler livros e notícias e ter um nível de inteligência emocional que me permite conversar com humor e graça sobre uma boa quantidade de temas. Neste momento já me odeia porque sou demasiado auto-confiante e não estou bem enquadrada no papel da vítima, não é?
Pois, eu compreendo. De qualquer forma, vamos tentar ultrapassar essa antipatia natural que já cresce dentro de si e voltemos ao tema.
Não, eu nunca fiz nenhum cruzar de pernas à Sharon Stone. Nunca lhe fiz beicinho ou pisquei o olho. (Assumindo que isto são técnicas de sedução!!). Limitei-me a ser mesmo só ‘Eu’, palavra de escuta. E o facto de eu ser ‘Eu’, deu ao meu chefe a sensação de que podia seduzir-me, neste caso, assediar-me.
Não. Não pode.
Não pode porque é meu chefe. Leia-se – ponto. Exerce autoridade sobre mim e é responsável directo pelo garante da minha subsistência. A balança de poderes está desiquilibrada em seu favor o que me coloca perante dilemas totalmente injustos em contexto laboral.

Não sou eu que tenho de lhe impor limites, ir feita macambúzia para o trabalho ou vestida de governanta de Downton Abbey.
Nunca tinha visto as coisas neste prisma.
Este tema inspira-me a este texto mais pelo seu conteúdo de discussão sociológica do que propriamente pelo transtorno que me causa. Sou uma mulher adulta, pouco parva, e em tempos de crise sei perfeitamente usar as circunstâncias a meu favor.
Não sou a vítima comum, não.
Mas este facto não elimina o outro, facto, de estar a ser alvo de assédio sexual, disso ser errado e de não ser minha responsabilidade. 

Verónica de Medeiros

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publicado às 14:01



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