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Cordas da roupa.

por Sobre.tudo, em 13.02.18

Passei a estar muito atento às cordas onde estendo a minha roupa.

Antigamente, quando conhecia pessoas que mudavam muitas vezes as cordas onde estendiam a sua roupa, não conseguia empatizar imediatamente com elas. Às vezes, não chegava a empatizar de todo. Tinha uma espécie de crença de que as cordas onde estendemos a roupa deviam ser respeitadas para a vida toda. Que as devíamos encarar como uma espécie de santuário e todos sabemos que não mudamos de santuário a toda a hora.

Depois aconteceu-me vida.

Desde que me aconteceu vida até hoje, já terei estendido a minha roupa numa dezena de cordas diferentes.

E empatizo comigo.

Mudei a minha crença. Hoje, creio que há efectivamente um santuário, um lugar de culto que deve ser respeitado inequivocamente. Reside dentro.

De cada vez que estendo a minha roupa numas novas cordas, sorrio. Sorrio, porque me dá graça de mim mesmo. Para estar ali, junto daquelas novas cordas da roupa, é porque algures nas imediações estão espalhadas as minhas malas. Umas já abertas, outras não. Algumas camisolas a aguardar serem passadas a ferro ou então bem estendidas porque junto daquelas cordas não haverá ferro de passar. Sorrio, porque para que aquele meu movimento aconteça, umas vezes inclinado para a frente, outras vezes com os braços esticados em cima, é porque uns dias antes fiz mais uma viagem. Às vezes viajo de carro até às minhas novas cordas. Outras vezes de avião. Nunca viajei de barco. Sorrio, porque me dá graça de mim mesmo. Dá-me graça de mim mesmo porque compreendo agora o vício da liberdade do nómada, do errante, no limite, do vagabundo. Estou certo que muitos amigos hoje invejam este meu vagabundear com tanta veemência quanto o depreciam. E empatizo.

Sei todas as histórias que encerram as últimas 10 cordas da roupa. Umas mais fugazes que outras, umas mais intensas, outras mais sofridas. Todas corroboram esta nova crença de que tenho em mim tudo o que preciso. Todas concorrem para a capacidade de ver hoje além do óbvio, do feio, do imediato, do que dói, do que chora e do que grita. A cada nova corda da roupa, sorrio. Às vezes, as cordas estão muito altas e preciso de me esticar muito para conseguir pendurar lá o que quero. Mas nunca nada ficou por pendurar. E sorrio. Já houve vezes, que tive de me inclinar bastante para conseguir acomodar devidamente a minha roupa nas cordas, mas nem por um momento me senti partir. Já estendi a minha roupa em cordas curtidas pelo sol e comprovei que, mesmo quando enfraquecidas, continuam a ser bastante resistentes. Já me vi em situações em que a minha roupa ficou pendurada a grande altitude e onde o risco da roupa se soltar e perder era imenso, mas arrisquei e nunca perdi peça alguma. Houve também casos em que partilhei as cordas da minha roupa com terceiros e nunca, nunca faltou espaço para todos. A cada nova corda da roupa, sorrio.  

Nem sempre sorri. Alturas houve, em que enfrentar a necessidade de estender a minha roupa numas novas cordas, era semelhante a me pedirem para parir uma criança. Semanas antes, começava a ter dores. Quando o dia chegava tudo corria naturalmente mal. O caos invadia-me e bloqueava-me os sentidos e o sentir. Nada funcionava, todos os processos perdiam temperança e por muito boas que fossem as novas cordas, a minha resistência era maior. Hoje, sou substancialmente mais fácil de conquistar. Hoje, a minha roupa acomoda-se muito mais facilmente em qualquer fio natural, sintético ou metálico. E sorrio.

Aconteceu-me vida entretanto.

Leonardo Sobral

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publicado às 14:21



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