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O que tem de especial esta golden retriever?

por Sobre.tudo, em 21.12.17

Padeço de cinofobia desde sempre. 

Segundo consta, nunca terei sido atacada, mordida ou maltratada por um cão. Ainda assim, escondo as mãos de cada vez que um se aproxima. 

As mãos sempre foram o grande problema. Aproxima-las enche-me de expectativa. Expectativa de que vai certamente arrancar-me todas as falanges e eu, na tentativa insana de combater a força daquele maxilar vou vê-lo rasgar-me a pele, a carne, até que nada mais reste senão os cotos banhados de um sangue pulsante. 

Drama.

Esta expectativa faz-se acompanhar da sintomatologia normal: suor, taquicardia e perda de noção da realidade. Apesar de nunca se ter vindo a confirmar, a expectativa, não me consigo abster das consequências: guinchos histéricos, repetição da mesma palavra incessantemente (exemplo, 'olha, olha, olha, olha, olha, olha, olha, olha, olha, olha.........') e por fim, choro convulsivo. 

A compreensão não abunda, mesmo sendo tão comum. Aceita-se, por vezes com um olhar de condescendência, mas não me parece que cheguem a compreender. Porque o fariam se nem eu o faço? Dificilmente abandono esta temática sem uma tentativa de salvação. Toda a gente tem aquele desejo secreto de ser o salvador de alguém e, claro, a minha fobia inspira as pessoas a me quererem 'tratar': “Olha aqui, faz-lhe uma festinha.” 

Penso: "Faz-lhe uma festinha"... "Com as mãos".... pois...

Eu sorrio e tento justificar: “Pois, eu não consigo.” 

Na minha cabeça o animal está claramente a preparar-se para me arruinar uma mão mal eu tenha a infeliz ideia de me aproximar. "Pessoas, eu tenho medo de cães. Fazer-lhe uma festinha é só aterrador!". Também nunca perguntei se podia usar outra parte do corpo para a festinha...

Uma vez, a mãe de um namorado (uma querida!) achou que o que me ia resolver (a mim, sim!) era dar um ossinho ao pastor alemão deles que era tão educado que não se mexia até que lhe dessem voz de comando: "Experimenta, Martina. Vais ver que ele não se mexe até que lhe digas que pode comer!'".

Oi?? Um osso?? Na minha mão?? E depois da minha mão para a boca dele?? 

Tentei. Desgraçada. Tentei várias vezes agarrar no osso! Mas nem no osso conseguia tocar. A imagem de que assim que o osso estivesse na minha mão ele ia saltar e comer-me não só a mão desta vez, mas provavelmente até ao cotovelo, deixa-me cada vez mais incomodada... 

A querida mãe do meu namorado só me 'soltou', quando comecei a chorar. Sim, isto já foi depois dos 30. 

Hoje, no entanto, aconteceu algo incrível!

A poucos dias do Natal e em profunda fase/crise de (des)identificação materna, uma golden retriever, que decidi chamar-se Lucy, fez-me sentir o pêlo canino pela primeira vez!

Três décadas e tal depois de dar a primeira golfada de ar, afaguei o pêlo de um cão. Sozinha. Sem pressão. Ao meu tempo. Ao meu ritmo. Ao nosso ritmo. 

Há já algum tempo que ela me ronda quando eu estaciono. Eu, esquivo-me rapidamente para dentro do escritório e mando-lhe piscadelas amorosas do lado de cá do vidro. Hoje fez-me o mesmo. Encurralou-me com o ar mais meigo que encontrou. Sentou-se à porta, à espera. E eu, que sou educada, não conseguia fechar a porta. Fiquei ali a olhar para ela do lado de dentro, com a porta entreaberta, enquanto lhe dizia silenciosamente "Desculpa, não consigo". 

Ela afastou-se e eu fiquei triste. Entrei. Pousei as coisas na secretária e de repente fui assolada pelo pensamento ridículo: "E se conseguisses fazer-lhe uma festa hoje?".

Ridículo!

Abri a porta e comecei a olhar para ela já deitada ao sol. Também ela me olhava e perguntava: "Tens a certeza?".

"Não."

"Tens a certeza?"

"Também não."

E agachei-me. Ficámos ao mesmo nível. Aqui elevei o risco a um nível que raiou o disparate porque se aquilo corresse mal não ia ficar apenas sem as mãos. Não me mexi e ela também não. 

"Não venhas, não venhas."

E bati deliberadamente com a mão direita no joelho. Soube instintivamente que aquilo ia ter consequências. 

"Vem. Não venhas."

E ela olhou para mim, conteve-se uma fração de segundos, provavelmente a pensar "Se vou aí e me fechas a porta na cara outra vez mordo-te mesmo!", e veio. 

E o meu coração não bateu mais forte. Não suei. Não me mexi. Sorri e ouvi uma voz bem terna na minha cabeça a dizer "Não fujas". 

A Lucy, compreendendo a solenidade daquele momento, aproximou-se com muito vagar e com o focinho baixo, a dar-me o topo da cabeça e a afastar a boca da equação. 

Afaguei-a durante um bom tempo enquanto permitia umas quantas lágrimas gordas. 

Fiquei mesmo feliz.

Martina Eça

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publicado às 23:17



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