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Sobre a morte.

por Sobre.tudo, em 18.01.18

A morte confirma a vida.

Impõe o desapego.

Se o morto for muito próximo, sentimos dores físicas. Se o morto for relativamente próximo, experimentamos antes uma sensação de apatia. Estamos tristes, mas não desesperados. Preferíamos que não tivesse partido, mas fizemos a despedida convenientemente. Estamos conscientes do ciclo vida-morte, aceitamo-lo como seres racionais que somos. Tentamos apaziguar a dor daqueles de quem o morto era muito próximo. Sentimos as dores deles que acabam por nos doer também. Choramos com eles e sentimos o seu desespero bem no epicentro da nossa apatia.

Esta apatia é um terreno fértil de reflexão de morte-vida.

Reflito. Não. Imagino a minha morte.

Tenho 90 anos e estou lúcido. Perdi a minha mulher, companheira de uma vida há quase uma década e desde então a vida perdeu quase toda a cor. Os últimos anos passei-os num espaço quentinho, rodeado de outras pessoas da minha faixa etária. Um espaço higienizado, com relativa dose de silêncio e barulho onde me alimentam e medicam. Fui eu que escolhi este local para a última fase da minha vida. Quando ainda era um jovem espadaúdo e comecei a tomar consciência da minha finitude, tomei algumas decisões. Uma delas foi escolher o local onde queria passar os últimos anos da minha vida. Sempre fui independente e a ideia de confiar essa decisão a terceiros começou a corroer-me por dentro. Ainda não tinha filhos quando comecei a refletir estas questões e, mesmo que tivesse, não queria deixar-lhes a eles o fardo desta decisão e muito menos, tornar-me no fardo. Não. Não era assim que queria terminar os últimos anos da minha vida.

Queria mar. Sempre quis. Sempre soube que não podia morrer longe do mar. Assim, hoje, aqui estou. Sentado numa cadeira confortável defronte para este mar imenso. A manta protege-me desta brisa primaveril que todos os jovens sentem quente, mas que eu e os meus já fracos ossos sentimos com respeito. Inspiro e expiro. Todos os dias revejo a minha vida, as minhas decisões, as minhas consequências. Sempre quis ter uma vida significativa e sinto um alívio imenso por chegar aqui, a estes 90 anos, e me sentir tão preenchido. Posso partir a qualquer momento, sinto-me verdadeiramente realizado. Inspiro e expiro. Não escondo um nervosismo latente quando penso nesta partida. À semelhança de outros, não sei o que me espera do lado de lá. Não sei se tenho efetivamente alguém à minha espera, não sei se poderei voltar a ver o sorriso dos meus filhos ou a gargalhada dos meus netos. Sei que estou cansado de sustentar este corpo. Sei que a cada visita da minha doce família fico mais cansado. Tão cansado que só sorrio. Eles sabem. Eles sabem que eu vivi muito e que agora posso simplesmente passar os dias a olhar o mar e a sorrir. Noutros tempos escrevia. Sempre escrevi melhor defronte para o mar. Mas hoje já não. Hoje sinto as histórias concluídas.

Ainda há, no entanto, uma história cujo destino já não será o papel. É sobre a morte do meu corpo físico e o que me irá acontecer de seguida. A religião sempre ajudou os fiéis a não temer este momento que agora sinto tão próximo, mas eu há muito deixei de ser fiel. E temo-o. Não me parece que haja forma de não temer a morte, especialmente se a vida tiver sido preenchida e generosa. Sempre me apaziguou a ideia de um extenso campo verde, com árvores frondosas e pessoas sorridentes vestidas de branco. Esta imagem gravei-a de uma novela da rede Globo e pode perfeitamente retratar a visão cristã e islâmica do paraíso. Cristãos e muçulmanos empenham-se numa vida de bem sabendo que a recompensa será uma estadia de longa duração no paraíso até ao dia do Juízo Final, altura pela qual se dará a ressurreição. As almas purificadas retornam aos seus corpos humanos e dá-se início a uma prazerosa vida eterna.

Budistas e hinduístas têm uma visão diferente. Alicerçados no mesmo necessário bom desempenho humano, a alma migra para outro corpo após a morte do corpo físico. Esta reencarnação será tanto mais agradável quanto o comportamento em vida do portador, ideia que me ajudou a ‘aceitar’ as injustiças e sofrimentos a que assistimos todos os dias.

Como já vem sendo hábito, não me identifico totalmente com nenhuma das generosas hipóteses avançadas pelas principais religiões, pelo que, essa será a última história que elaboro - o que me aconteceu após a morte do meu corpo físico. 

Mas isso será só quando tiver 90 anos. Hoje não tenho tempo, preciso ir enterrar o meu avô que faleceu há pouco. Tinha 90. 

Leonardo Sobral

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publicado às 16:07


2 comentários

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De amarquesademarvila a 18.01.2018 às 17:44

Um texto maravilhoso. Uma reflexão tão bonita sobre a vida e sobre a morte.
Obrigada!
Um abraço
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De Sobre.tudo a 21.01.2018 às 14:54

Um abraço de volta, com um agradecimento especial!
Leonardo

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