Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Walter

por Sobre.tudo, em 27.04.18

Prometi-te que os meus filhos não haveriam de ouvir falar de ti a menos que fosses o pai deles.

Conto honrar essa promessa.

Estás longe de fertilizar raízes dentro de mim, pelo que, desgraçadamente silencio-te. Tento. A ti, que és tudo menos silêncio.

Tenho crises de ti de quando a quando. Imagino que seja quando te apercebes que estás a criar silêncio dentro de mim. Aí, voltas sem nada me dizer. Suponho que, na verdade, seja eu que te traga. No pavor de algum dia conseguir verdadeiramente concretizar esta promessa.

Sou do amor romântico, tu sabes. Como posso permitir que te vás se foste do mais romântico que tive até hoje?

Do mais brutal também. Sofri como nunca antes, e suponho que seja esse vício de dor que me mantém na necessidade de não te calar. O racional há muito venceu. Já está imposto (e bem) o ‘Não contacto’, ´Não jogos´, ‘Não artimanhas’, ‘Não subterfúgios’. Agora sabes que só voltas aqui, a este meu espaço sagrado, se vieres com intenções de colocar luz dentro. E por favor, não faças essa cara de pânico. Já passámos por tanto. Já posso perfeitamente encostar-te à parede desta maneira, por favor.

Consegui, finalmente, afastar-te, mas ainda não consegui silenciar-te. Porque não quero, suponho.

Esse sorriso exagerado. Oh, ninguém aguenta. Esses olhos que já riram mais e que hoje em dia carregam um esgar de tristeza que não consigo aliviar. Ainda assim, esses olhos. E esse corpo apurado que recentemente tive a infeliz ideia de voltar a tocar. Não és nada de mais e estupidamente representas tudo.

Quero-te fora do pedestal, mas de cada vez que tentas sair eu encarrego-me de te obrigar a ficar. Deve ser tão difícil manteres-te aí. Mas preciso que compreendas que me estou a esforçar. Remexo no passado em busca de alguém que te faça companhia, mas não há ninguém que eu, por uma leve sombra de nostalgia, admitisse que daria um bom pai para as crianças. Tu também estás bem longe de ser um protótipo, mas a ti concebo. Bolas. E é assim que te vais mantendo aí.

Sempre detestei carregar histórias do passado. Sempre me esforcei por as levar bem até ao fim para que não se arrastassem pela vida fora quais nostalgias baratas e cliché. Daí que os meus filhos não venham a ouvir falar de ti. Não serás aquele amor da vida da mãe. Não serás. Talvez só te venha a permitir que sejas especial aqui.

Aqui talvez possas ser o amor da minha vida. Aquele amor que amamos para sempre, mas com quem é impossível viver. Encontrarei um amor que possa amar e viver. Tu és outro tipo.

Recordo os nossos passeios de scooter pelas ruas de Barcelona pelo transbordar que sentia dentro. Só ver-te conduzir uma scooter, seguro e confiante, me fazia segurar na garganta um soluço. Ainda agora o sinto. Era orgulho, admiração, paixão e uma alegria estúpida interna que nunca cheguei a compreender. E abraçava-te até te queixares que te estava a apertar demais, quando, na verdade, apenas me segurava atrás. Nunca te deixei saber exactamente, nessa altura, a loucura que tinha por ti apesar de a teres sentido inequivocamente pela forma tresloucada com que então te amei. Nunca te abracei enquanto conduzias aquela scooter com o fulgor com que apertava a trave atrás de mim porque achava que quando soubesses não conseguirias aguentar. Tinha medo de te magoar com esta demasia.

Era semelhante quando agarravas na guitarra. Os trejeitos que fazias quando cantavas e tocavas para mim tinham semelhante efeito na minha profunda loucura por ti. Nessas alturas procurava respirar fundo para conter. Conter a crescente onda interna que, de tão forte, nada havia que a pudesse aquietar. Nada. O teu sorriso não era suficiente. Um beijo não bastava. Um abraço era pouco. Unir corpos através do sexo era incompleto. Nestes momentos, em que estas avalanches de reverência, veneração e encantamento me assolavam, nada do que fizesses era suficiente para as aplacar. Sempre soube que possuir a tua alma seria a única forma de encontrar apazigo.

Afastei-me. Temi algum dia conseguir - possuir a tua alma.

Era insano, mas verdadeiro. Fui sentindo a minha demência a cada mês que passava. Sei que o amor nunca teve espaço para brotar, sério, bonito e firme. Também sei que jamais voltarei a apaixonar-me desta forma. Espero que não. Fiquei doente. E ressaco até hoje. Tenho crises profundas de ti. Já passaram anos, já passaram outros, já voltaste a passar.

Inspiro e expiro. Foi brutal. Desumano e Espetacular. Brutal.

Espero, em breve, conseguir silenciar-te. Se tiveres de ter espaço, que seja só aqui. De quando em vez. Não te quero carregar pela vida fora qual aventesma e espectro do que poderia ter sido, mas que nunca foi porque nunca poderia ser coisa alguma.

Rosa LeBron

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:17


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais sobre mim

foto do autor